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Um salame e seis abraços.

por Cláudio da Silva, em 24.03.20

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Sempre gostei do Natal, não pelo consumismo ou pelas prendas sem fim, mas pela magia das luzes, a árvore, o presépio com aquelas figuras de gesso recheada de animais, as decorações nas janelas, a fantasia daquele homem de barbas que penduramos nas nossas janelas... Hoje, vejo o Natal como um dia em que muitos se reúnem e revivem aquilo que não se revive o ano inteiro. Esquecemo-nos muitas vezes de tanta coisa, de tantas pessoas, de tantos momentos bons, e concentramos tudo num dia específico onde pressionamos um convívio de sorrisos muitas vezes por favor, e para compensar tudo aquilo que esquecemos anteriormente, mas ali, é uma preocupação. Muitos estão longe, não podem estar com os seus. Muitos passam fome, não podem ter uma mesa farta. Muitos sofrem, e não podem ou conseguem sorrir. O Natal é como outro dia qualquer. Lágrimas, sorrisos, sussurros, gritos, alegrias, tristezas, nascimentos, mortes, uniões, separações e tudo o que possamos imaginar. Mas se existem coisas que não dispenso é aquilo que gosto de fazer, observar.

Observo os que me rodeiam, e caminho. Adoro caminhar a pé nestes dias. Geralmente os locais estão mais desprovidos de pessoas, de movimentos, de sensações, mas se estivermos atentos aos sinais, existe todo um mundo que parece mais oculto ao nosso redor, mas que, bem explorado por alguém que sinta a verdadeira essência das coisas, não vai deixar passar despercebido.

Vou directo a casa. Está frio. Normal desta época do ano. A meia noite está perto. Estive em Lisboa e tenho de ir para Sintra. Assim o fiz. Não usei o carro. Estranhamente, quando sai da estação de comboio, ao invés de fazer o caminho que me era habitual, resolvi andar um pouco mais até ao meu bairro. Reinava o silêncio. Cheirava a comida. No ar, algum sinal de nevoeiro vindo da serra. Pouco. Passo a passo, vou olhando para as janelas. Observo as luzes das moradias. Vejo as decorações que se ressalvam mais à vista entre a escuridão e as coloridas luzes exteriores de Natal. A magia. Poderia ser uma criança qualquer quando entra numa loja de brinquedos, mas era apenas eu. Não entrei numa loja, mas circulava num mundo cheio de coisas.

Ouço algumas vozes. Do lado de lá dum prédio que ainda não tinha alcançado consigo também ouvir alguns sorrisos. Rapidamente, e porque o meu caminho de hoje era aquele, vejo que, num pequeno jardim e “debruçados” sobre uma mesa de cimento se encontravam 6 rapazes. Não os contei na hora é claro, nem liguei a esse pormenor, mas a situação seguinte, levou-me a certificar-me de algumas coisas. Um deles estava em pé. Os outros sentados à volta.

O que estava em pé, olhou rapidamente para mim e em tom de voz alta, diz, “Feliz Natal”. Pelo sotaque, confirmei não ser português. Tentava falar a minha língua materna e fê-lo sem medos, para, num esboçar de um sorriso gigante, me desejar as festas felizes. Olhei. Sorri. Agradeci e retribui exactamente o mesmo. Mas, e apesar do local ser escuro, um deles levanta o braço e diz-me adeus. Olhei mais intensamente. Confirmei que se tratava de um rapaz ucraniano que vivia perto de minha casa e que com alguma frequência me fala e me cumprimenta mesmo só de saber que vivo por ali. Sempre que passa por mim, oferece um sorriso, ou, se mais perto, me aperta a mão. Pouco sei dele, mas sei que vive por ali. Sei que trabalha em Portugal, e, contou-me ele uma vez, numa conversa rápida, na porta de uma loja de conveniência, que vivia com o irmão. Num daqueles apertos de mão calorosos e cheios de vontade de conversar, em tempos contou-me que veio para cá para tentar ganhar algum dinheiro e um dia voltar para o seu país. Trouxe o irmão mais novo com ele, que, quer um dia levar de volta também.

Quando me apercebi de que era o meu “simpático vizinho”, perguntei-lhes o que faziam ali. “Então, aqui ao frio?”, disse. “Sim, estamos a comemorar o nosso Natal aqui entre amigos. Somos seis. O senhor do café, ofereceu-nos 6 cervejinhas e estamos aqui a comemorar o Natal”, contam-me entre um sorriso contagiante, e entre palavras meio trocadas pelos sotaques, como se aquele fosse o melhor presente que já tiveram e o melhor Natal que já sentiram. Tão pouco e tão felizes.

“Então, mas beber assim cerveja sem comer faz mal”, disse eu, alimentando a conversa um pouco mais. “Pois amigo, isso é que já não há. Não temos ninguém para fazer bolos nem dinheiro para gastar. Isto chega”, dizem-me procurando as palavras certas entre o português e a língua que lhes era materna. Confesso que me comovi. Não é preciso muito, para sentir algum desconforto quando noto que a falta de comida incomoda ou perturba alguém. Senti que isso acontecia ali. E resolvi fazer algo.

“Vão ficar por aqui?” Perguntei. Responderam que sim. “Volto já”, disse. Ficaram a olhar para mim sem entender muito bem a minha atitude, mas eu estava certo do que ia fazer.

Lembrei-me que em casa tinha um salame quase inteiro no frigorífico e que, sozinho, não o ia comer. Não tinha ninguém na casa de Sintra além de mim naquela noite, portanto, tudo aquilo era “demais”. Vou ofecer-lhes, pensei. E assim fiz.

Entrei em casa, cortei umas fatias, embrulhei num papel de prata, meti dentro da mochila e desloquei-me de novo ao local onde os 6 rapazes ucranianos se encontravam. “Aqui está uma prenda minha, para acompanhar com a cervejinha”, disse. “Bolo, Salame Vegetariano”, afirmei. Não sei se me entenderam. Mas isso não interessava.

Reinou o silêncio, e por momentos, por milésimos de segundos, confesso que fiquei assustado. Será, pensei rapidamente, que a minha atitude pode não ser bem “acolhida”, mas tudo não passou da minha fértil e atrapalhada imaginação momentânea.

Um deles, levantou os braços, colocou as mãos atrás da cabeça e perguntou “Para nós? Sério que é para nós?” A voz tremia. Vi que tinha um grande à vontade no português. Parecia comovido. O que me era hábito falar, aproximou-se também de mim. Cerrou os olhos nos meus. Congelou. Um dos outros, levanta-se do banco de cimento, dá alguns passos e pergunta-me, “Posso dar um abraço? Respondi que sim. Junto à minha face ouço sussurrar umas palavras que não entendi. Provavelmente eram ucraniano. De seguida ouço um “obrigado”. Aproximaram-se todos e perguntara-me se também me podiam dar um abraço. Quase todos me agradeceram com um obrigado, à excepção de um que notei estar bastante comovido com o meu gesto. Não pronunciou uma única palavra e apenas me apertou como se eu fosse um anjo que lhe ofereceu algo de grandioso. Senti-me enorme, com uma atitude tão pequena.

“Bem, agora vou-me embora. Espero que gostem”, disse-lhes. Esboçaram uns gigantes sorrisos enquanto me responderam, “Sim”.
Tocaram algumas palavras entre eles, de forma calma, que não entendi. Não me interessava.

Se existe um Pai Natal, não sei. Pode existir um Pai Natal qualquer que olha por todos nós, que espreita na chaminé, que anda de trenó ou não. Pode existir alguém lá em cima, que olha por nós, por mim, por vocês. Ou talvez não exista? Bem, cada um acredita no que quer. Que todos se respeitem. Que todos tenham as suas crenças. Que todos amem quem quiserem. Desejo um mundo sem sofrimento. Desejo um mundo sem sofrimento para todos. Animais, pessoas... Que todos celebrem este Natal e todos os dias da melhor forma, com coisas boas, com sorrisos, objectivos, conquistas. Este foi um pedaço do meu Natal. Não foi nada demais, mas para mim significou muito. Para eles penso que também.

Caminhar e estar atento aos sinais, é mágico. Esta foi uma das minhas magias. Um bolo por abraços. E abraços que valeram bem aquilo que senti. Apertados, carregados de agradecimento e ao mesmo tempo espanto. Sou como sou.

Se não poderes abraçar, dar aqueles abraços com significado, sorri. Levanta a cabeça e faz o que te vai na alma. Exprime o teu coração fora do teu corpo.

Este foi um pedaço do meu Natal. Um salame e seis abraços.

Cláudio da Silva

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