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Vou morrer amanhã.

por Cláudio da Silva, em 24.03.20

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O Lourenço tinha uma personalidade forte. Uma pessoa de ideias vincadas. O Lourenço estava decidido. Mas, haveria volta a dar? Fiquei espantado, receoso, fiquei atormentado com a abordagem dele. E veio ter comigo apenas, com a mãe, para me conhecerem! O Lourenço foi uma das pessoas que até hoje me deixou mais nervoso e uma das quais mais me levou a ponderar isolar-me do mundo. Mas não aconteceu!

Enquanto tomava café no Alegro de Alfragide, nas já habituais poltronas do Starbucks e onde já me conhecem há vários anos, olho o que me rodeia. Vou intercalando entre o que consumia, as pessoas, e o horizonte que me era possível alcançar. Entre muitas pessoas, reparei em 3 rapazes jovens que se faziam acompanhar de uma senhora, provavelmente na casa dos sessenta.

A senhora, por coincidência, olhou para mim. Parou. Ficou o olhar de uma tal forma que não consegui evitar de também olhar para ela. Rapidamente começou a sorrir. Comentou algo com um dos rapazes. Avançou na minha direção. “Por acaso não é o Cláudio?”, perguntou. Respondi que sim. A alegria notada foi extrema. Isabel, disse-me que me conhecia das redes sociais e que me adorava seguir. Sempre desejou cruzar-se comigo e que não tinha tido oportunidade nunca de ter participado em nada organizado por mim. Enquanto Vegano, promovo algumas coisas relacionadas com o tema, mas não só. Escrevo muito pela internet, sobre veganismo, comédia, testemunhos. Dou o meu exemplo, mostro a minha forma de estar na vida. E a Isabel seguia-me afincadamente. Um dos filhos também. O Lourenço, que gostava de animais e comida vegetariana. Fiquei feliz pela abordagem. Já não é a primeira vez que me o fazem, mas, desta vez, tudo foi diferente.

A Isabel vinha com o Lourenço, o João, e o Ivo. Dois filhos e um amigo dos filhos. E eu, tive oportunidade de conhecer o Lourenço. O Lourenço, ia morrer amanhã. E ninguém sabia. Só ele. E eu fiquei a saber também. Ele confiou-me o segredo. O terrível segredo que me deixou sem dormir uma noite e me valeu alguma medicação para me conseguir acalmar. Mas, já lá vamos...

A Isabel trocou algumas palavras comigo. Não sei se era suposto sentar-se no Starbucks a tomar café, mas sentou-se, na mesa do lado, com os filhos e o amigo do filho. Mas eles, não ficaram muito tempo. Um deles, tomou um café rápido, e levantaram-se os três. A Isabel ficou sozinha. Olhou para mim. Sorriu. Parecia que queria falar comigo de novo. E queria. “Cláudio, gostava de lhe confiar uma coisa”, diz-me. Convidei-a a sentar-se na poltrona que estava na minha frente. Entre alguns soluços, duas ou três lágrimas teimosas e algumas hesitações, acaba por me contar que o Lourenço, o seu filho mais velho, estava a passar por uma grave depressão. Fechava-se em casa, não queria ver o mundo. Para o trazer na rua era complicado. Aquele dia tinha sido uma das excepções em que, o irmão mais novo, o conseguiu demover do espaço conforto. Coisa rara. Tinham acabado de vir de um restaurante vegetariano. Sorriu imenso. Contou-me o que comeram. Contou-me também que no meio do almoço o Lourenço disse gostar imenso da comida e lhe apetecer aprender a cozinhar. Sempre gostou de cozinhar, mas os bloqueios que o assolavam não lhe deixavam levar para a frente um dos sonhos de tempos antigos, ser cozinheiro. Quem sabe ser cozinheiro Vegano? Sorriu. E a Isabel, habituada a ler os meus testemunhos, habituada a ver que eu falava com muitas pessoas, ouvia muitas pessoas, dava conselhos muito pessoais a muitas pessoas, achou que eu, poderia ser uma ajuda para o Lourenço.

Mas como? Como meter o Lourenço na minha frente para ele conversar comigo? Iria ele querer falar com um estranho? Iria ele aceitar palavras de um ser que não lhe era nada? Contar-me aquilo que o atormentava? Iria o Lourenço sequer quererer sentar-se e olhar para mim?
Pois é. Mas tudo isso, aconteceu! Por mais incrível que pareça, e por muitas vezes que eu não consiga encontrar uma explicação para estas coisas, mais uma vez aconteceu.

A Isabel é astuta. Desafia alguns minutos depois os filhos a virem tomar mais alguma coisa antes de se irem embora. Manda uma mensagem ao filho mais novo, o Ivo. E avisa-o de que, vão tomar algo ali, mas, em seguida, ela, vai arranjar um pretexto para se afastar, e também ele e o amigo. E assim foi. A Isabel diz que tem de ir ao multibanco. O Ivo, chama o amigo João para ir com ele ver uma coisa na Fnac, só entre eles. Segredo de amigos. A Isabel diz ao Lourenço para ficar, que não se demora. E lá estávamos os dois frente a frente. Todo este esquema foi tão rápido que quase eu próprio não sabia que tudo aquilo tinha sido uma encenação para colocar alguém em frente a mim. Parece um filme mas não é. Mas podia ser, se podia! E o pior, ainda não tinha chegado!

“Então Lourenço, a tua mãe contou-me que gostas de cozinhar”, digo. O Lourenço responde-me que sim e que tinha estado a comer num restaurante vegetariano, algo que eu já sabia mas fingi não saber. Perguntei-lhe se tinha gostado. Disse-me que sim. Perguntei-lhe porque não se dedicava mais a esse tema, e o Lourenço, respondeu-me, “ando aí com uns problemas, sem vontade”. Ora lá está. Onde eu queria chegar, pensei para mim! Conversamos. Questionei. Atrevi-me. Cerrei os olhos. Voltei a fazer questões. Sorri. Dei asas a que a conversa se tornasse num diálogo de quem se conhece há muito tempo, embora não o fosse. O Lourenço perdeu um amor, perdeu um amigo, o Lourenço meteu na cabeça que não vai ter mais ninguém na vida, o Lourenço teve um pequeno tumor já curado, o Lourenço juntou tudo isto e isolou-se. Este era o seu medicamento para se manter. O isolamento. Vamos lá nós explicar a mente, a nossa incrível mente.

Entretanto um momento de silêncio. Alguns segundos depois, “A solução é esta”, diz-me. Olhei para ele. “Não entendi Lourenço”, respondi-lhe. A solução para tudo é entregar o meu cão a alguém de confiança que tome conta dele. O meu irmão. E acabar com tudo”, explica-me. O Lourenço achou que para todos os problemas a solução era única. Terminar com a vida. E disse-me cara a cara. A um estranho. Mas, tinha um pequeno amor, o seu cão. Teria de entregar o seu pequeno grande amor a alguém e depois podia partir descansado. Estranho. E ao mesmo tempo tão genuíno. “Vou morrer amanhã”, diz. “Vou morrer amanhã Cláudio”, repete. “Vou falar com o meu irmão e vou terminar com tudo”, volta a dizer. Tremi. Fiquei perplexo com o que estava a ouvir. Perguntei-lhe se estava a brincar comigo. Não, não estava. A conversa, pareceu explodir, saída directamente de um vulcão. Afinquei-me mais. Cerrei os olhos nele. Disse-lhe não. O Lourenço tinha de me ouvir. E ouviu. A solução não era aquela para nada. O patudo dele precisava dele, a mãe, o irmão, os amigos, eu, todos nós. Num impulso cheguei-me para a frente e apertei-lhe a mão. Na hora nem pensei que poderia não gostar. Mas ele, não se importou. Trocamos algumas palavras fortes. O Lourenço queria partir mas eu fi-lo ver que todos precisavam dele. Lembro-me que no momento me deu uma quebra de tenção. Recostei-me. Estava a tremer. Parei de tremer alguns minutos depois. Tentei não mostrar que fiquei nervoso. Do nada o Lourenço olha para mim e diz-me, “Gosto do teu piercing”, levantou a mão, e com o dedo indicador tocou-me na ponta do nariz. Rimos. “Vais ganhar coragem e continuar como te pedi?”, perguntei. Acenou com a cabeça que sim. Olhamos alguns segundos um para o outro, olhos nos olhos.

A Isabel volta. Olhou para mim. Olhei para ele. O Lourenço baixou a cabeça. “Bem, vou ter de me ir embora”, expliquei. Ao levantar-me da mesa, tombei um copo com um pouco ainda de água. Pouca. Ignorei. Ignoramos. Despedi-mo-nos. “Está tudo bem”, foram as minhas última palavras para a Isabel.

Passou algum tempo. O Lourenço está bem. Não partiu. O Lourenço é acompanhado por um psicólogo. O irmão do Lourenço, o Ivo, já o consegue levar ao cinema. Eu, vou sabendo notícias dele. Estamos para combinar um almoço. Um dia destes... Lourenço é o nome verdadeiro dele. Ivo também. Isabel é um nome fictício. A “Isabel” deixou-me escrever esta história, mas pediu-me para lhe mudar o nome! Claro que sim. Nas noites seguintes dormi mal. Tomei alguns calmantes. Perdi um amigo que se suicidou e que estava longe de mim. Mas consegui que o Lourenço “não morresse amanhã”! Bem... Será mesmo que fui eu que consegui? Ou terá sido tudo fruto da coragem dele? Ou fomos os dois? Estou bem.

Há, já agora, o Lourenço vai fazer um piercing igual ao meu. Não, o Lourenço, “não vai morrer amanhã”.

Cláudio da Silva

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